25 outubro 2005

Mergulhar em transparência

"A parede

A vida é um longo, e talvez interminável, período escolar, com diversas matérias e inúmeros mestres, e aprendemos tudo, e contudo não aprendemos nada. Cometemos sempre os mesmos erros, como se estivéssemos programados para eles. Voltamos aos mesmo lugares, inventamos as mesmas situações, desejamos as mesmas coisas - e no entanto gostaríamos que existisse outra coisa, outro campo de possibilidades, outra alegria mais simples. Mas somos cegos para ela, como os outros são cegos para a nossa.
Podemos imaginar, como tantas vezes o fiz, que existem situações de transparência e envolvimento de um dentro do outro em nós cada vez mais apertados. E existem, eu sei que existem. Eu vivi esse modo de existir. Mas, ao mesmo tempo, sempre tive a ilusão de que pelo facto de existirem, e de serem de tal modo intensos e siderantes, eles pertenciam à eternidade. O meu erro estava em pensar que era possível que eles durassem para sempre, porque só assim existiam verdadeiramente, e eu estava a sentir que existiam verdadeiramente.
(...) no plano privado, pode-se pensar que a sinceridade absoluta é uma virtude. Mas (...) talvez se deva dizer que a felicidade é superior à sinceridade: como Nietzsche explicou, cada um de nós é feito de verdade e ilusão, e a arte é essa forma luminosa de ilusão que nos permite resisitir à verdade.
A transparência implica o desarme - mas raramente dois desarmam ao mesmo tempo. E seria um erro pensar que o facto de um se desarmar perante o outro faria que esse outro desarmasse também. Por vezes a situação de vulnerabilidade acicata no outro o desejo de vencer. E assim temos a grande linha de tragédia entre os homens: os estados de iminente transparência transformam-se num jogo de massacre, numa batalha campal. As metáforas guerreiras são aqui imprescindíveis. E nenhum apelo que se faça tem escuta do lado oposto. Era preciso que houvesse um só lado e dois corpos entregues à nudez do desconhecido. Lacan tinha um curioso jogo de palavras: transformava "l'amour" em "le mur". O que nos sufoca é este sentimento de que, como num conto de Edgar Poe, estamos definitivamente emparedados.
O meu erro, aquele de que farei a minha verdade até à morte, é o de que em determinadas circunstâncias é possível atingir o outro e tocar-lhe naquilo que ele tem de mais íntimo, secreto e criança. Por vezes apetece-nos pegar em alguém pela garganta da angústia e absorver-lhe a própria respiração. Existirá uma palavra mágica? Só que o outro não está onde julgamos que ele está. Ou está, e nós fomos condenados a não o ver?
A beleza poderá ser o que não tem a ver com a aparência, mas, sim, o que numa pessoa vem sinalizar a sua capacidade de se deixar olhar e mergulhar em transparência. Isto na paixão, claro, mas também na amizade. Porque a diferença entre a paixão desmedida, a medida do amor quotidiano, feito de gestos tão pequenos que por vezes são invisíveis, e o nó denso da amizade, vai-se esbatendo com o tempo - e isso nós conseguimos aprender. Em dada altura temos todos a mesma idade - se quisermos. A dada altura o amor rodeia-nos por todos os lados. Estendo o braço e espero, na ausência da tua mão, as mãos numerosas e quentes que suportam a queda."

Eduardo Prado Coelho, in O Fio do Horizonte (Público, 19 set 2005)



[Li... e não pude deixar de sentir que fazia tanto sentido. Por isso largo as palavras aqui... talvez encontrem, em vocês, mais sentidos.
Baci... ***]

1 comentário:

Dri por Ana Rita Seixas disse...

Adoro estes textos...conseguem ser profundos ao ponto de nos perdermos nele...torna-se difícil chegar a qualquer conclusão...(cá entre nós, é uma sensação um bocadinho angustiante...)...;) BACI