20 outubro 2006

Coimbra

[Talvez porque esteja para tão breve a serenata e as capas negras façam balouçar as memórias. Talvez devido ao meu regresso. Talvez porque Coimbra guarda os nossos laços, une-nos nas vivências, ampara-nos as recordações.
E, sei lá. Talvez também por causa do futuro, acho eu. Porque se não se pode crescer com os olhos fitos lá atrás, também crescer sem olhar para trás não é crescer...]
Não acredito que se possa deixar de relacionar a memória que temos de um espaço com as coisas que lá vivemos. Coimbra é a mais bonita de todas as cidades que já conheci na vida. Em Coimbra, nasceu o meu filho. Na Primavera, a luz é a claridade. A luz limpa que desenha todos os contornos de uma nitidez bela, como se fosse a luz que trouxesse beleza às ruas, aos edifícios, aos rostos. Lembro-me sempre de Coimbra numa eterna Primavera: o ruído de centenas de pássaros invisíveis nas copas das árvores da Praça da República. Lembro-me de estacionar o carro no Terreiro da Erva, avançar pela Rua da Sofia – que, nesta cidade de doutores, não significa o nome próprio, mas a palavra grega «conhecimento» –, lembro-me de atravessar a Rua Ferreira Borges, com o meu filho ao colo, ao lado de uma pequena multidão que observava montras ou que passeava com o desprendimento e a satisfação de passear. Lembro-me de procurar um lugar vago numa das esplanadas do Largo da Portagem. De um lado, o rio Mondego; do outro, as pessoas. Duas correntes serenas, iluminadas por essa claridade da Primavera. Depois, o tempo a ser, também ele, uma corrente serena. O tempo também iluminado por essa claridade que parecia anunciar a ressurreição do mundo.A latada, os rasganços, a queima das fitas. A cidade vive pelos horários da universidade. Os estudantes são o sorriso com que a cidade sorri. Passam vestidos de negro ou sentam-se nos cafés que têm letreiros a dizer: «Proibido estudar». O seu sorriso é jovem há muitos séculos: os que chumbam consecutivamente para não abandonar a república onde vivem, os que vão a casa de comboio no fim de semana, os que se sentavam a meu lado nas esplanadas da Praça da Portagem quando era Primavera.Em Coimbra, os lugares são tão bonitos como os seus nomes – Penedo da Saudade, Quinta das Lágrimas –, em todos eles se respira a serenidade longa de um tempo que demora e que não exaspera. A cidade é também o seu tempo. Subir ao convento de Santa Clara e fazer o nosso olhar atravessar o rio, toda a distância. Caminhar no Jardim da Sereia, nas ruas da baixa. Sentar-se numa esplanada.O Diário de Coimbra dá as novidades da Académica. Será que vai voltar à primeira divisão? Em todos os cafés há um homem a ler o jornal. É Primavera, pois lembro-me sempre de Coimbra numa eterna Primavera. Também há crianças a correr. O meu filho quer correr, mas é demasiado pequeno e fica no meu colo, a beber colheres pequenas cheias de leite morno, muito atento aos outros meninos. Faço-lhe uma brincadeira qualquer e ele sorri, olha para mim. É Primavera. Há algo de felicidade aqui. À noite, há um bailado no Teatro Gil Vicente, as trupes de estudantes andam silenciosas pelas ruas, os namorados estacionam os carros no convento de Santa Clara e beijam-se diante das luzes da cidade: a torre da universidade lá em cima, os fios de luzes até à baixa estendem-se no rio. O dia nascerá atrás da cidade. A claridade atravessará vários tons até chegar o fim de tarde e eu estacionar o carro no Terreiro da Erva e chegar ao Largo da Portagem com o meu filho ao colo e nos sentarmos numa esplanada a sermos felizes.Hoje, o meu filho já anda, já corre. Ao domingo, vamos à feira de Santo António dos Olivais ou vamos à feira da Rainha Santa. O meu filho foge-me da mão e começa a correr. Eu páro-me a vê-lo. O seu corpo pequeno ensina-me a ternura ou qualquer outra coisa grande. De certeza que é Primavera nesta cidade. O meu filho corre na claridade. Penso que um dia havemos de jogar à bola no Jardim da Sereia. O meu filho não sabe o que penso, mas olha-me e sorri, chama-me «papá». Sorrio também.Às vezes, sentamo-nos na esplanada do café Santa Cruz. O meu filho conta-me das brincadeiras do infantário, conta-me dos colegas. Conversamos. As pessoas passam, como se passasse a cidade, como se passasse o tempo. Mas Coimbra está parada na claridade dos olhos do meu filho, na claridade dos meus olhos. Ainda assim, nesse tempo parado, chega a hora da despedida. Dou um abraço ao meu filho, sinto o seu corpo pequeno dentro dos meus braços.No carro, Coimbra fica para trás. Cada vez mais longe. É noite. Coimbra é a cidade mais bonita de todas as que já conheci na vida. Em Coimbra nasceu o meu filho.
José Luís Peixoto

4 comentários:

Joanight disse...

Coimbra é uma cidade cheia de personalidade :)
E a ela devo mtas das melhores recordações q tenho..

bom regresso rita :)

Dri por Ana Rita Seixas disse...

Três Comentários:
- "Coimbra" - é sem dúvida a cidade mais linda que conheço...
- "José Luís Peixoto" - é o melhor escritor português contemporâneo....

- Rita, onde recolheste este texto? ESTÁ SIMPLESMENTE DEMAIS!!!
Obrigada por teres compartilhado connosco estas palavras, que só fazem sentido e só se tornam realmente belas e fazem sentido a quem viveu e estudou em Coimbra...

Dri por Ana Rita Seixas disse...

Vou ter de cometer o pecado do plágio e coloca-lo no meu blog!!eheh
Beijões

Ritona disse...

Ehehehe!... Eu "roubei-o" ao zézi... Bigada, amiguito =)